O silêncio a tortura. Em uma manhã perfeitamente quente e azul, tudo está fora do lugar. São xícaras, pratos, roupas, sapatos, bolsas, cinzeiros e garrafas. A desordem remete ao que ela não vê por baixo das coisas. Como pássaros que ignoram as minhocas simplesmente por não terem fome. São levados pelo leve vento pra longe sem se importar em lembrar o caminho de volta depois.
A paz machuca. Tanta paz assim é sinal de trevas mais além. Como se trevas fosse o caminnho lógico da serenidade. Para cima, para baixo. Sentimentos rodopiam leves pelo ar quente e úmido. Ela tenta se concentrar mais uma vez. Esforço em vão. Fecha os olhos rezando pro momento não durar mais do que o necessário. "Desta vez vai dar certo" ela pensa. Resmunga e tenta de novo. Caramba!!
Falhou miseravelmente. Como todas as vezes antes disso. Não sabe se está bem ou se vai conseguir melhorar depois. Sente o nó na garganta e desmonta no chão sem forças, com as mãos vermelhas, quase roxas sem sentir o sangue que se acumula nas palmas. Ali, parada, como criança sem conforto e filhote a respirar rapidamente na esperança de ser ouvido. Deixa-se levar pelo tempo. Maldito tempo que nos tranforma, mas jamais podemos retribuir.
Há alguns cortes em seus braços. Não foi de propósito. Foi lavando o banheiro. Há cortes no calcanhar. Sapatos novos. Há escoriações nas pernas. Freiada inconsequente do motorista de ônibus. De novo, para cima, para baixo. Pensamentos levados ao alto e transferidos para baixo. Ela é um passarinho aprendendo a voar. Aprendendo a ser levada pelo vento.
Por um momento ela pára. Respira o cheiro de desinfetante que a cozinha exala. Enjoa-se do cheiro e levanta-se. Pára novamente na pia. Refaz os movimentos. Visualiza novamente e com um último suspiro de coragem ela vai tentar novamente. É isso que faz dos fortes, fortes. O pássaro precisa se estatelar no chão pra alcançar vôo. Filhotes precisam ferir pra sobreviver. Essa é a evolução das espécies. Ela precisa evoluir. Ela precisa crescer.
Então de ímpeto ela chuta a solidão pra fora. Arranca com os olhos a tristeza do peito. Faz sumir o medo entre os dedos. Ela está pronta. Finalmente. Movimenta rapidamente os dedos e numa explosão de sentidos sem sentido algum ela tenta mais uma vez. Não pensa se falhar. Não se importa se não der certo. Apenas tenta com todas as forças que ela possui.
E num desses golpes do destino...ela consegue. Ali, o doce triunfo. Tudo se esvai como água entre as mãos. Ela se sente amortecida pela vida. Ah, a vida! Doce e memorável vida. Nos ares, sentindo a liberdade do céu. Finalmente ela venceu a dura batalha.
Ela coloca o vidro de azeitonas de lado e continua a seguir cuidadosamente a receita da vovó. Apetitosa torta de frango que tanto queria a semana toda. Bom que não atrasou o almoço. Bom que não atrasou a vida.
